PSICÓLOGO E PSICANALISTA
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NITERÓI - RJ
A parábola dos cegos (Pieter Bruegel o Velho, 1568)
Construímos muitas coisas para lidar com o desamparo. A história da civilização nos atesta isso. Desde a união em grupos, instituição da linguagem e da fala, dominação das tecnologias de agricultura e pecuária, criação de meios cada vez mais sofisticados para lidar com as intempéries da natureza e a invenção da religião, nos esforçamos para dar um destino ao vazio e ao desamparo que nos atravessa. Hoje, o avanço da ciência e da tecnologia nos atestam o mesmo: o desamparo nos move.
Freud, quando escreveu O mal-estar na civilização, destacou três fontes primordiais de desamparo. O poder superior da natureza, a fragilidade do corpo e as relações sociais são causas de sofrimento, medo e desespero. Estamos de acordo com Freud quando ele destaca, dentre as três fontes de desamparo, as relações sociais como aquela que é a mais penosa. Enquanto as outras duas nos parecem inevitáveis, e, portanto, somos obrigados a aceitá-las em alguma medida, a que comporta a relação entre as pessoas nos parece, supostamente, que pode ser evitada e assim nos frustramos constantemente com o outro. Não sem razão, estamos imersos em um mundo altamente equipado com dispositivos tecnológicos de comunicação, revelando a demanda que temos de resolver questões referentes aos laços sociais pela via da proliferação dos meios de se comunicar.
Muito interessante é o filme intitulado “Frankenstein”, recentemente lançado em uma plataforma digital de streaming, quando o monstro, criado por Victor a partir de fragmentos de corpos sem vida, faz ao seu criador um único pedido: que crie para ele um semelhante com quem possa compartilhar sua existência. A imortalidade não representa nada para o monstro se não houver alguém com quem possa estabelecer um laço. O monstro de Victor, imortal, porém mergulhado na linguagem que é puramente humana, estabelece para si algo - impossível, já que seu criador se recusa a criar um novo monstro - que seja capaz de dar cabo de seu sofrimento. Isso denota o drama e a esperança do nosso tempo em relação ao liame social, uma vez que o conhecimento filosófico e científico, a lei e a religião têm se mostrado insuficientes em suas promessas de triunfo sobre o mal-estar. Claro, sabemos que nada é capaz de suprimí-lo completamente, mas constatamos que o conjunto humano se esforça muito nesse sentido e a idealização do laço social, bem como as promessas de supressão dos impasses pelas tecnologias de comunicação, são aspectos da ilusão do nosso tempo. A aposta na fraternidade é legítima! Porém, se sua função for dissolver o vazio e o desamparo, condicionamos sua realização ao impossível.
Disso podemos extrair a importância da psicanálise para o nosso tempo – também criada para lidar com o desamparo humano. Desde a sua criação, ela surge como resposta aos impasses no registro do laço social, transformando a fala em um dispositivo de tratamento e apaziguamento dos efeitos da precariedade do amor, que está sempre aquém de sua função idealizada.
A pergunta “Psicanálise, para que te quero?” nos coloca a possibilidade de uma resposta que, inicialmente, pode ser comentada a partir de dois aspectos supostamente distintos. O primeiro orientado ao desenvolvimento de uma teoria que contribui para a compreensão da cultura e da humanidade em seu movimento histórico-social. O outro aspecto considera a práxis de um saber fundado na clínica, através da escuta e do tratamento de sujeitos afrontados pelo sofrimento, mal-estar e angústia. A bem da verdade, ambos os aspectos estão intimamente associados e mutuamente implicados, o que, de saída, nos dá a dimensão da complexidade que uma abordagem utilitária da psicanálise compreende.
Freud criou a psicanálise no momento que o saber preponderante sobre o psiquismo humano era baseado fundamentalmente na objetividade científica que se pretendia – e ainda é assim - reduzir a causa psicopatológica ao sistema orgânico. Seu método inovador priorizou a fala e a história individual, situando a psicopatologia no registro da constituição subjetiva de cada sujeito. A psicanálise se debruça, portanto, sobre o psiquismo humano, revelando o inconsciente à revelia de abordagens que tomam o indivíduo através do comportamento, da cognição e da consciência.
A consideração do inconsciente enquanto um conceito, longe de se referir a algo que se opõe à consciência, diz respeito a um ponto de desconhecimento, ao que é propriamente íntimo do ser, que, embora nunca completamente, pode ser apropriado pelo sujeito através do trabalho de análise. O inconsciente, tal como concebido por Freud, integra o aparelho psíquico determinando as escolhas, os fracassos e as repetições de sofrimento de uma pessoa. Portanto, podemos destacar que as relações sociais são, inevitavelmente, atravessadas pelo inconsciente, nos colocando diante da importância de um tratamento que se presta a escutá-lo através dos equívocos, das entrelinhas e dos sonhos, uma vez que essas são as formas, desde Freud, de o inconsciente se revelar. Estar atento a esse inconsciente, sempre evanescente, diga-se de passagem, configura o selo que faz da psicanálise um saber que se distingue radicalmente da psiquiatria e da psicologia.
Sustentamos, com a psicanálise, o lugar vazio como algo constitutivo do sujeito para contrapor o consumo desenfreado, as idealizações narcísicas de alta performance profissional, física e amorosa, o medo do fracasso frente às escolhas e riscos que são próprios à vida. Isso significa dizer que a psicanálise se opõe aos ideais de completude e às promessas de soluções definitivas do mal-estar. As ansiedades, depressões e fobias, tão presentes no momento que vivemos – cabe ressaltar, momento no qual todos esses sintomas são amplamente comunicados e esclarecidos – não são as marcas de um tempo no qual se recusa avidamente as impossibilidades que constituem a experiência humana?